Acho que Jorge Amado estaria orgulhoso do texto da filha Paloma !

 Acho que Jorge Amado estaria orgulhoso do texto da filha Paloma !

Crônica de Domingo, 6 de janeiro de 2019, publicada na sexta,

 

 4: Princesas, príncipes e as crianças sem cor do Brasil.

 

"Há 83 anos, meu pai, o escritor Jorge Amado, publicou seu quinto livro. Ele tinha apenas 23 anos. O romance “Capitães da Areia” retratava a vida dos meninos de rua da Cidade da Bahia, que ele tão bem conhecia. Nos contava que naquele então eles não eram mais que 300 adolescentes e crianças. Podia-se conhecê-los pelo nome. Hoje, nas estatísticas oficiais, são 24.000 no Brasil. Será? Acho que são muitos mais.
A publicação daquele que tem sido o maior best seller de Jorge Amado nos seus quase 100 anos de autor publicado, com alguns milhões de exemplares vendidos no mundo todo e ainda hoje tendo novos contratos a cada ano, coincidiu com a Ditadura do Estado Novo, de Vargas. A Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado preconizava o conservadorismo no lema “Deus, Pátria e família”. Resultado: Livro apreendido, queimado em grande fogueira em praça pública, com decreto em Diário Oficial e tudo. O livro ganhou público através de sua versão para o espanhol, em seguida para o francês. Demorou a sair no Brasil. Desde então, é o mais vendido sempre. 
A história de Pedro Bala e do grupo de jovens marginais, de porte bem menor, se comparado com o que se vê hoje nas comunidades dominadas pelas gangues de narcotraficantes e de milicianos, e de Dora, menina que conseguiu fugir aos ataques sexuais de homens perversos, quando da morte da mãe por bexiga negra (e falta de qualquer tratamento), ganhou mundo como um grito de socorro para o gravíssimo problema que, já naqueles idos de 35, chamava a atenção para a total falta de sensibilidade em relação às crianças pobres do Brasil.
Nos anos 50, João e eu estudávamos no Colégio Andrews (único colégio particular que frequentamos na vida, e por pouco tempo), quando uma escola adotou como leitura para seus alunos adolescentes o livro de José Condé, “Um ramo para Luísa”, e o “Capitães “ de papai. Um grupo de mães e pais foi contra, buscaram os jornais:
-- Minha filha jamais será uma Luisa, não quero que ela conheça o lado ruim da vida...
-- Meu filho é um menino decente e não um “capitão d’areia”, para que ler tal barbaridade?
Me lembro das conversas em casa, com Zé Condé e papai, todos muito tristes por não serem minimamente compreendidos. Afinal, quem se preocupava com os menores abandonados? Os socialistas, é claro. “Uma corja...”
O patrulhamento religioso, naquele tempo, também era grande para as crianças na escola. Millor Fernandes publicou uma piada em sua página semanal em “O Cruzeiro”. A piada era:
Jesus, da cruz, olha para Madalena e diz:
-- Hoje não, Madalena, estou pregado.
A discussão pegou fogo no Andrews. João, meu mano, foi dos poucos ( o único?) a defender Millor.
-- Ele tem o direito de falar de quem quiser, não temos censura no Brasil, que é um país laico ...
No final das aulas, tomou uma surra gigante. Teve a camisa rasgada, o que desgostou muito nossa mãe, pois custava caro e os tempos eram bicudos. Remendou e Juca foi remendado o resto do período letivo.

Nos últimos 40 anos, Capitães da Areia é sempre adotado pelas escolas como leitura obrigatória. Não só no Brasil! Conheci meninos portugueses, franceses e angolanos que leram o livro e aprenderam sobre cuidar da infância com este clássico de Jorge Amado, recomendado por suas escolas.

Assisti à posse do novo presidente, assim como alguma coisa da transmissão dos cargos dos novos ministros. Gosto de estar por dentro daquilo que me causa medo e horror. Foi pior do que pensei. Ouvi da Ministra Damares Alves, o que conta esta nota de jornal:
“Futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves defendeu nesta terça-feira (11) uma “contrarrevolução cultural” e disse que meninas devem ser tratadas como princesas e meninos, como príncipes.
“No momento em que coloco a menina igual ao menino na escola, o menino vai pensar: ela é igual, então pode levar porrada. Não, a menina é diferente do menino. Vamos tratar meninas como princesas e meninos como príncipes”, declarou.
“É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa", afirmou a ministra.
A advogada e pastora evangélica assumiu o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos nesta quarta-feira . Em discurso na solenidade de transmissão de cargo a ministra afirmou: "O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã".

 

Como assim, Cara Pálida?
Dá medo, não é? A mim deu! Meninas de rosa, meninos de azul. Os que estão na rua, sem a menor chance de nada seriam o que? Provavelmente os de marrom desbotado. Esses ficam para lá, não são mencionadas ações para restabelecer seus direitos como ser humano. Que oportunidades os meninos e as meninas têm, quais suas opções? Infelizmente sabemos que são cooptados pelos bandidos, prostituídos, brutalizados. Eles não querem ser príncipes e nem princesas, querem ter o que vestir, não importa a cor.
É terrível, a gente tem que engolir o discurso em libras da primeira dama, vestida de princesa (vestido copiado da Princesa Aurora, da Disney, que por sua vez copiou de Grace Kelly), para distrair os brasileiros que ainda acreditam em uma “mudança”. Grande marqueteiro eles têm! Nossa primeira dama é uma princesa! E por isso ela se vestiu como uma das que está no imaginário da população. A primeira mulher do seu marido fugiu dele, foi para a Noruega, prestou queixa por agressão e na campanha voltou atrás... mas esta o ama e o beija na boca para que todos os brasileiros vejam... Vamos, meu povo, quem sabe despertem dessa história de conto de fadas, como aconteceu com a Princesa Aurora, a Bela Adormecida. Quem sabe um beijo pelas crianças desamparadas do Brasil, aquelas sem cor, faça com que abram os olhos.
Mal acabara de escrever estas reflexões, e quem eu vejo sendo entrevistada na televisão? A própria ministra Damares. O assunto do rosa e do azul (os príncipes e princesas fizeram menos sucesso de público...) como tema palpitante. Ela fala em metáfora, em combater a discriminação na escola dos que usam azul e rosa, o bullying feito às crianças que querem ser tratados por príncipe e princesas que querem ficar longe da realidade da vida, isso lhe parece cruel... Não vejo esta resposta como coisa séria. Sobre o menor abandonado nenhuma palavra, também não foi perguntada. Certamente para este tema a resposta seja a diminuição da maioridade legal e balas a queima roupa. Pobres Pedros Balas, Sem Pernas, Gatos, Doras... 
Sempre saindo pela tangente, de repente uma resposta, na hora do Ping Pong, é dada sem exitação. Qual o seu escritor brasileiro preferido?
-- Vocês vão se surpreender! É Jorge Amado...
O jornalista quis saber porque deveria ficar surpreendido. Eu, que de verdade fiquei surpresa, pensei com meus botões: Vai falar agora de comunismo, da esquerda perversa, etc. Nada disso, motivo do espanto para ela é por ser autor que fala de sexo em suas obras! 
Falou de Tieta e Gabriela. Eu aproveito aqui para falar também de Tereza Batista, menina vendida pela tia ao Capitão sado-masoquista. O povo brasileiro, que Tereza representa, é tão forte e formidável, que mesmo sem os apoios necessários consegue dar a volta por cima, enfrentar a crueldade, lutar. Um grupo feminista italiano usa seu nome como emblema.
Gostaria de aproveitar este gancho e pedir à Ministra que, sendo mesmo fã de meu pai, leia “Capitães da Areia” e “Tereza Batista, cansada de guerra”. Leia e reflita. E leia tantos autores maravilhosos que existem no Brasil. Não deixe que a literatura brasileira seja banida das escolas, ela que tem contribuído para a formação do hábito de leitura de nossos meninos e meninas. Ler a boa literatura brasileira, do velho Graciliano, passando por Milton Hatoun e Raduan Nassar, chegando aos jovens como Giovani Martins, é muito melhor que os contos de fadas da Disney. Refletir sobre o que é o nosso país é sem dúvidas um caminho melhor para a formação da nossa juventude, do que sonhar com príncipes e princesas. 
Finalmente, gostaria de dizer que eu sou socialista. Aprendi com meus pais que nós, seres humanos, somos iguais, nascemos para ter liberdade, pensar pela própria cabeça, sermos unidos em irmandade, compartilharmos ao máximo o que temos em excesso com os que têm menos. Faço, da minha parte, tudo o que posso, com alegria e gratidão por esse maravilhoso povo brasileiro.
Bom domingo a todos."

 

Pequena Biografia de Jorge Amado

Gilberto Gomes - Jorge Amado - 1997 

 

Nasceu em 10 de agosto de 1912, em Itabuna, na Bahia, filho de João Amado de Faria e Eulália Leal. Aos dois anos, a família mudou-se para Ilhéus, onde o menino passou a infância e viveu experiências que marcariam sua literatura: a vida no mar, o universo da cultura do cacau e as disputas por terra. Começou a escrever profissionalmente como repórter aos catorze anos, em veículos como Diário da Bahia, O Imparcial e O Jornal. Na década de 1930 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde estudou direito e travou contato com artistas e intelectuais de esquerda, como Raul Bopp, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes e José Lins do Rego. Estreou com o romanceO país do Carnaval (1931). Durante o Estado Novo (1937-45), devido à sua intensa militância política, sofreu censuras, perseguições e chegou a ser detido algumas vezes. Foi eleito deputado federal pelo PCB em 1945. Entre os projetos de lei de sua autoria, estava o que instituía a liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, conheceu Zélia Gattai, com quem se casou, teve dois filhos, João Jorge e Paloma, e viveu até os últimos dias. Nas décadas de 1940 e 50, viajou pela América Latina, Leste Europeu e União Soviética. Escreveu então seus livros mais engajados, como a biografia de Luís Carlos Prestes e a do poeta Castro Alves, além da trilogia Os subterrâneos da liberdade. Rompeu com o PCB nos anos 1950. A partir de então, sua literatura passou a dar mais relevo ao humor, à sensualidade, à miscigenação e ao sincretismo religioso, em livros comoGabriela, cravo e canela (1958), Tenda dos Milagres(1969),Tieta do Agreste (1977). Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1961, e ganhou prêmios importantes da literatura em língua portuguesa, como o Camões (1995), o Jabuti (1959 e 1997) e o do Ministério da Cultura (1997). A partir da década de 1980, passou a viver entre Salvador e Paris. Sua obra está publicada em mais de cinquenta países e foi adaptada com sucesso para o rádio, o cinema, a televisão e o teatro, transformando seus personagens em parte indissociável da vida brasileira. Jorge Amado morreu em 2001, alguns dias antes de completar 89 anos.

 

 

 

 

 
 

Arquivo do blog

Companhia das Letras oferece curso sobre Jorge Ama...

Universo de Jorge Amado é sob medida para o cinema...

O GLOBO comemora centenário de Jorge Amado com par...

Show de Caetano Veloso homenageia Jorge Amado

Jorge Amado e a União Brasileira de Escritores

Exposição 'O Que Há de Jorge em Mim'

Neto de Jorge Amado na 7ª edição da Bienal do Livr...

Mostra 100 Anos de Jorge Amado: O Romance, a Bahia...

Jorge, bem amado pelos russos

Exposição '100 anos de Jorge Amado” em Universidad...

Depoimento de Claude Guméry-Emery sobre Jorge Amad...

Duas notícias sobre a adaptação de Os Velhos Marin...

Gabriela: Sinhazinha e Osmundo ganham espaço

Aprenda a fazer o Cupcake Jorge Amado

Jorge Amado universal

Hotéis-escola Senac preparam jantar em homenagem a...

Congresso celebra 100 anos de Jorge Amado

Novela 'Gabriela' resgata o estilo cabaré e a moda...

Homenagem de Mia Couto a Jorge Amado

“Papai não gostava de novela”, diz filha de Jorge ...

Conheça a trilha sonora da novela Gabriela

Entrevista com Antônio Fagundes

Concurso Reinvente Jorge Amado

Vídeos sobre a exposição ''Jorge Amado e Universal...

Curso Jorge Amado 2012

Obra celebre de Jorge Amado é o enredo da Colibris...

Um papo sobre Jorge Amado - FLIP 2012

Exposição sobre Jorge Amado em Campinas

Portal Centenário de Jorge Amado

Gal Costa poderia ter sido Gabriela

Projeto Amar Amado

Jorge Amado diria: "Não se meta com esse povo da T...

O Sumiço da Santa vai para os palcos

O desafio de filmar Jorge Amado - Análise do filme...

 
Jorge Amado, cujo nascimento completa 100 anos em 10 de agosto próximo, é o autor da literatura brasileira mais adaptado pela televisão. 
 
O texto e os personagens criados pelo escritor baiano, que morreu aos 88 anos em 6 de agosto de 2001, fazem parte do imaginário não só do povo brasileiro como do mundo inteiro. 
 
Além de ser traduzido para 49 idiomas, as novelas e minisséries baseadas em sua obra ganham o País e o mundo. 
 
Tal paixão do povo e da TV por Jorge tem como pano de fundo um fato curioso: ele não era muito fã de telenovelas, como revela ao R7 em entrevista exclusiva sua filha, Paloma Jorge Amado. 
 
— Papai não gostava de ver novela em tv, não estou falando das feitas sobre obras suas, mas qualquer. É claro que sempre via um capítulo aqui, outro ali. 
 
Mesmo com a falta de hábito, Amado aprovou a primeira versão para a TV de Gabriela, romance de 1958 adaptado para a TV em 1975; agora outra vez no ar com novo elenco. Tanto que adotou Sonia Braga como amiga. 
 
Paloma conta que o pai “achou Gabriela bem feita, não sei dizer sobre outras”. E revela qual era a adaptação para a TV preferida por ele. 
 
— Lembro que papai gostou muito do seriado O Compadre de Ogum. 
 
Por conta do centenário, o Brasil e o mundo festejam Jorge Amado. A editora Companhia das Letras, que detém os direitos da obra do autor, acaba de assinar 94 direitos de publicação mundo afora. Fora isso, uma nova edição de Gabriela, Cravo e Canela lançada em maio com 5.000 exemplares de tiragem já figura em terceiro lugar na lista dos livros mais vendidos. A exposição sobre o escritor no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, continua com filas intermináveis. 
 
Personagens preferidos
 
Paloma conta que Jorge costumava dizer que uma adaptação de livro seu na TV era “uma nova obra, mas que guardava a essência da obra original”. E vê na televisão “um meio de levar seu pensamento a um número maior de pessoas”. 
 
Ela, que também é escritora, confessa que assiste à nova versão de Gabriela, protagonizada por Juliana Paes e Humberto Martins. 
 
— Estou gostando e acho inevitável comparar com a anterior, tem muitos elementos semelhantes, inclusive já utiliza (agora no início) invenções da primeira, como é o caso do desejo das putas de irem à procissão. Isso não existe no livro, existiu na primeira adaptação da Globo, e volta agora da mesma maneira. Estou gostando em geral, mas destacaria os que realmente não se parecem com os da versão anterior. 
 
No meio de tanta novidade, diz quem são seus atores prediletos. 
 
— Meus preferidos são: o Humberto Martins, como Nacib, a Maytê Proença, como Sinhazinha, a Ivete Sangalo, como Maria Machadão, o Marcelo Serrado, como Tonico Bastos, e Anderson di Rizzi, como professor Josué. Estou ansiosa pela chegada de Mundinho, para ver o Matheus Solano, que é um ator que eu adoro. E também não posso esquecer da Suzana Pires, que está fazendo um Glória perfeita.
 
Mas, e a família Amado? Está toda de acordo com a força que Jorge ganha na TV. Voz a Paloma. 
 
— A família eu não sei... Eu adoro ver a obra de papai na TV, exatamente porque ela chega a um público não leitor imenso, e que, como um plus, pode passar a se interessar pela leitura. 
 
Jeito baiano de escrever
 
Além de Gabriela, outros romances, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, Mar Morto, Tocaia Grande, Tereza Batista e Tieta também ganharam versões de sucesso na TV. Para Claudino Mayer, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo), o sucesso é fruto da obra popular do baiano. 
 
— Jorge Amado tem um jeito baiano de escrever, no qual mistura o mundo rural com o mundo moderno. As obras dele não envelhecem. Jorge traz uma dramaturgia essencialmente brasileira, que entra no universo doméstico, mostrando uma Bahia que é síntese do Brasil. Além disso, a obra é de fácil compreensão do povo, que é seduzido por suas belas musas e homens marcantes.
 
Fonte: Portal R7
 
 

 

Notícias Diversas.

47º cosmo Caxambu 2019

26 a 28 de setembro – Hotel Glória.       Em setembro acontecerá na cidade de Caxambu MG, o 47º congresso Sul Mineiro de Odontologia, onde Ciências, Arte e Confraternização que se unem em três dias memoráveis.     O evento será realizado nos dias 26,27 e 28 de...

Coletânea IMORTAIS III

    A Academia de Letras do Brasil / ALB, juntamente com a Editora Alternativa, após o sucesso dos sois primeiros volumes, tem a satisfação de convidar escritores de todo o Brasil para a Coletânea IMORTAIS III, cuja série já figura as maiores obras coletivas do país.    ...

Magnífico, simplesmente magnífico.

        Quero publicamente parabenizar ao Editor Rodrigo Starling, o responsável pela arte da capa da coletânea Jackson Abacatu, a revisora Isabella Bretz e ao fotógrafo da capa e contracapa Evandro Teixeira, pela excelência e competência na edição da Coletânea “Cem...

Academia de Artes, Ciência e Letras possui 248 acadêmicos em todo país.

    Entidade fundada em VR atende atualmente cerca de 50 pessoas nos projetos de coreografia e música brasileira.       Volta Redonda – Reunindo pessoas mais notáveis nos setores da arte, cultura e ciência jurídica da região, a Acilbras (Academia de...
1 | 2 | 3 | 4 | 5 >>