Revista XXV CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS

Revista XXV CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS
 
SUMÁRIO
Poesias Premiadas ........................................................................................................ 1
1º lugar – Poesia ........................................................................................................... 1
O ASSOALHO DO VELHO CASARÃO ................................................................................. 1
2º lugar – Poesia ........................................................................................................... 2
A QUEDA DA FOLHA ...................................................................................................... 2
3º lugar – Poesia ........................................................................................................... 3
AUGUSTO CADÁVER ...................................................................................................... 3
4º lugar – Poesia ........................................................................................................... 5
3º lugar – Intérprete ...................................................................................................... 5
HORAS MORTAS ............................................................................................................ 5
5º lugar – Poesia ........................................................................................................... 6
EXÍLIO .......................................................................................................................... 6
1º lugar – Intérprete ...................................................................................................... 7
VERDADES ANÁLOGAS ................................................................................................... 7
2º lugar – Intérprete ...................................................................................................... 8
PATÉTICO, SUBLIME POETA ............................................................................................ 8
Demais Poesias Finalistas .............................................................................................. 10
A CULPA É MINHA ......................................................................................................... 10
CICATRIZ ..................................................................................................................... 11
CLANDESTINO .............................................................................................................. 12
COLHEITA ..................................................................................................................... 13
COM AMOR E COM FARINHA .......................................................................................... 15
FIM DA ESTRADA .......................................................................................................... 16
MAR IMAGINÁRIO ......................................................................................................... 17
MINHAS ASAS ............................................................................................................... 18
O CORAÇÃO ................................................................................................................. 19
OCO DOMINGO ............................................................................................................ 20
OPSÍGONO .................................................................................................................. 21
RODA DA VIDA ........................................................................................................... 23
SACOS DE LIXO ............................................................................................................ 24
 
 
 
Poesias Premiadas
1º lugar – Poesia
O ASSOALHO DO VELHO CASARÃO
Autor: Matusalém Dias de Moura (Vitória/ES)
Pseudônimo: Antônio Inconformado
Intérprete: Josué Oliveira
As tábuas largas do assoalho do velho casarão
que meu bisavô construiu,
meu avô herdou
e hoje são ruínas que meu pai não quis,
guardam, silenciosas,
os passos lentos de meu avô paterno
a arrastar cansados chinelos pela casa afora,
já tarde da noite,
à procura da quartinha d’àgua
para matar a sede que o atacava e aplacar a tosse pigarrenta
que, havia anos, o acompanhava.
Aquelas velhas tábuas de madeira de lei
guardam ruídos de vassouras varrendo restos de terra e ciscos,
sons de botinas pisando, compassadamente,
uma vida inteira de fazendeiro;
guardam marcas de pés descalços
a se arrastarem, em valsa, no último baile de casamento.
Naquelas tábuas, estão guardadas as histórias
de vida e morte de meus antepassados,
lágrimas caídas e dores que não me foram contadas.
Guardam também os sinais dos joelhos de minha vó em tardes
de ladainhas
e fé.
Ah!... Quantos silêncios guardam aquelas tábuas!...
2
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
2º lugar – Poesia
A QUEDA DA FOLHA
Autor: Celso José Cirilo (Uberlândia/MG)
Pseudônimo: Kearney
Intérprete: Marcos Paulo
Vai, ela,
no seu voo cool de folha lanceolada,
de inércia e ócios de tarde...
Seria o vento,
o acaso,
o inevitável?
Ou, quem sabe, o tempo do propósito?
Eis que a bainha, insensível, desatou-lhe o pecíolo,
atirando o limbo assustado ao vento decadente
Começa, ele, a sua sessão de contorcionismos
uma dança sutilmasoquista de vulto em queda
e talento inato para lidar com a própria fatalidade
Cai desenhado
um esboço de vai-e-vem,
de cai -não-cai,
de eternidade efêmera caindo na grama
à cata de quase 60 segundos
Nunca mais outra ocasião
para desnudar a sua insignificância
e ofertá-la à cegueira egoística dos transeuntes
A queda da folha é a realidade tátil
aos olhos do leitor
mas ele os têm presos a Manoel de Barros
ou, quem sabe,
estão pescando ovos de basilisco
nas declarações do Gabriel García Márquez
Quantas ilusões de quase-existências
lembranças de existências
e saudades de inexistências
ainda cabem nesse resto de voo?
Quanta espera, sonho e loucura
não reclama esse pasmo final?
E o limbo, beijando o chão,
gargalha a agonia do não mais existir
no logoali
ondequando
tempo e espaço forjam a carcaça impalatável da morte
3
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
3º lugar – Poesia
AUGUSTO CADÁVER
Autor: Gilberto Cardoso dos Santos (Santa Cruz/RN)
Pseudônimo: Amor Tecido
Intérprete: Fabrício Manca
Augusto dos Anjos, poeta da morte,
Tão jovem no leito sem vida jazia
Morreu atacado por pneumonia
Entregue ao destino que temos por sorte.
Um mal invisível mostrou-se mais forte
Impondo ao corpo feroz morbidez
Tirou-lhe do ser qualquer altivez
Trazendo à mente cruel prostração
Começa a maldita decomposição
Que prova a verdade dos versos que fez.
De onde vieram os versos cortantes
De góticas vestes sonoras vestidos,
Bonitos e tristes, amados, temidos,
Quais blocos de gelo no mar flutuantes?
Estrofes perfeitas e aterrorizantes
Nasceram do corpo que agora é velado
O golpe maldito enfim foi-lhe dado
A massa encefálica perdeu a batalha
Só resta o lamento e pôr a mortalha
Naquele que em vida se viu sepultado.
Se ele pudesse agora se ver
Cadáver em princípio de putrefação
O que comporia perante a visão
Do fim absurdo de seu próprio ser?
Talvez que viesse a se exceder
E em póstumos versos melhor descrevesse
O drama que expôs; bem mais entendesse
A dura verdade que poetizou
E aos favos de fel que armazenou
Com lúgubre gozo quem sabe sorvesse.
Com olhar de abutre em vida se via
À espera do instante do último alento
A perenidade de cada elemento
O punha em constante e íntima agonia
O sol do otimismo não o atraía
No vale da sombra da morte ficou
O que haveria de ser afetou
4
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
A filosofia do ser transitório
Vivia à espera do próprio velório
Com apática certeza seu afim aguardou.
Em breve os vermes na exuberância
Da carne sem vida, augusto banquete,
Tal como crianças lambendo sorvete
Irão deleitar-se sem repugnância
O ecossistema com certa elegância
O magro cadáver irá decompor
Quem sabe na pétala de fúnebre flor
No vivo tapete que venha a nascer
Augusto inspire alguém a dizer
Que o mundo é estranho, mas encantador.
5
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
4º lugar – Poesia
3º lugar – Intérprete
HORAS MORTAS
Autor: Aloísio Ferreira de Araújo (São Paulo/SP)
Pseudônimo: Saturnino Domênico
Intérprete: o autor
Silêncio, sombras vis do meu passado,
Demônios, corpos secos retorcidos,
Que à beira de um sepulcro abandonado,
Padeço, entre soluços e gemidos.
Furor e fé rastejam lado a lado,
Nas gretas dos meus lábios ressequidos,
E aos berros, feito um deus desesperado,
Enterro o mundo todo em meus ouvidos.
Se as horas mortas gemem triunfantes,
Ao som de sinfonia delirantes,
Tomara um novo dia nunca nasça.
Não vale a pena estar e ser no mundo,
Que a morte é o sono eterno mais profundo,
E a vida é o monumento da desgraça.
6
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
5º lugar – Poesia
EXÍLIO
Autor: Antônio Roberto de Carvalho (São Paulo/SP)
Pseudônimo: Faroleiro
Intérprete: Amanda Ferraz
Meus olhos são faróis sempre voltados
para o horizonte, além daqueles dunas
onde sombras de seres exilados
navegam em escunas.
Incautos, seguem sobre a rebeldia
do mar que os arremessa a canto algum,
rompendo os laços do que foi um dia
o lar de cada um.
Ancoradouros de esperanças mortas,
dilaceradas pela intolerância
que abre do inferno as insondáveis portas
com as chaves da ganância.
Subjugados pelos dissabores,
vagam a esmo, a espreitar o entorno,
velando o fel das incontidas dores
de não haver retorno.
A mão que mata não semeia flores,
nem se comove com a desgraça alheia;
promove guerras, patrocina horrores...
Com que se banqueteia.
Houve um tempo de risos e certezas;
de pessoas vivendo em liberdade,
mas os pilares dessas fortalezas
não eram de verdade.
Resta o consolo de saber que a vida
não é somente um manancial de dor;
que há de vencer a fúria genocida
o fraternal amor!
7
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
1º lugar – Intérprete
VERDADES ANÁLOGAS
Autora: Jeane Gislon de Menezes (Rio Grande/RN)
Pseudônimo: Allived
Intérprete: Christiane Ribeiro
Quando caminhares sobre o céu de veludo
E Pontilhar de esperanças teus caminhos,
Quando distribuíres sorrisos em bonança,
E amares de amor à temperança;
Quando engolires a angústia desmedida,
E transpirares a felicidade aguerrida,
Quando alcançares as estrelas coloridas;
E conseguires desejar da água insípida,
Verás que o impossível é controverso;
E declamarás versos,
Assim como velhas cantigas;
Florescerá em teu cerne a razão,
Tomarás posse do teu chão e,
Então acenderás;
Sob a pequenez centelha do ter,
E tal modo, perceberás;
Que o anoitecer é apenas um detalhe,
O amanhecer só um entalhe;
Na inteira completude do ser!
8
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
2º lugar – Intérprete
PATÉTICO, SUBLIME POETA
Autora: Karla Celene Campos (Montes Claros/MG)
Pseudônimo: Ângela
Intérprete: Willens Douglas
Lâmina. Espinho. Pedra.
Quem pode definir um homem?
Qual é a definição de um poeta?
Anulação. Aniquilamento. Decomposição.
Quanto tempo dura um homem?
Qual a duração de um poeta?
Pau D' Arco. Rio de Janeiro. Leopoldina.
Quem pode limitar espaços,
Se a obra rompe cenários,
Se a obra jamais termina?
Simbolista. Expressionista.
Pré-modernista. Parnasiano.
Em que período se insere um artista
Nitidamente contemporâneo?
Ceticismo. Abismos. Ascos.
Quem não vivencia
A antítese da utopia
Nesta terra de homens putrefatos?
Atualíssima é a angústia, sublime Poeta,
Na podridão dos dias que são os nossos,
Na falta de sentido de todos os dias,
Na distopia pós-moderna.
Sua agressão é nossa arma
Poética,
Patético Poeta,
Patrono de outros esdrúxulos que vieram
E que insanos escarram nas repugnâncias
E se aliviam
No delírio febril da poesia...
Vês? Ninguém considerou teu enterro
O fim da última quimera
Mais do que elementos químicos brotaram
Do teu não definitivo sono.
9
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
Permaneces.
A lâmina que fere é a mesma que molda.
A pedra que apedreja é a mesma que constrói.
O espinho que espeta é o que nos faz espertos.
Vês? Ninguém considerou teu enterro
O fim da última quimera.
Poesia engendra fruto,
Augusto.
Patético.
Sublime.
Esdrúxulo.
Poeta.
10
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
Demais Poesias Finalistas
A CULPA É MINHA
Autora: Maria Leda de Moraes Chini (Rio de Janeiro/RJ)
Pseudônimo: Balburgo
Intérprete: Nina Gani
Se teci fios de esperança
revestindo tua imagem
e esses fios que teci
foram sonhos sem valia,
sinto muito, amor:
a culpa é minha.
Se juntei folhas caídas
na piscina de meus sonhos
e o vento aventureiro
essas folhas separou,
sinto muito, amor:
a culpa é minha.
Se fiquei na encruzilhada
sem saber a direção
e os caminhos se cruzaram
em formas e opções,
sinto muito, amor:
a culpa é minha.
Se escolho a luz do dia
encurtando a noite escura
e me escondo na utopia,
me deixando simular,
sinto muito, amor:
a culpa é minha.
11
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
CICATRIZ
Autor: Matusalém Dias de Moura (Vitória/ES)
Pseudônimo: João Pureza
Intérprete: Josué Oliveira
Foi puro e foi bonito o nosso amor;
fez-me sonhar, tomado de alegria,
mas, de repente, entrou em agonia
e, logo, perdeu todo o seu calor,
deixando minha vida sem sabor
e sem aquela ingênua fantasia
que, agora, na malvada nostalgia,
vem-me, sorrindo, cheia de fulgor.
Ao relembrar aquele amor vivido
nos dias do passado mais querido,
Sinto fincar-me o espinho da saudade
do tempo em que, confesso, fui feliz
e que deixou em mim a cicatriz
desse amor que foi todo intensidade.
12
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
CLANDESTINO
Autora: Zenilde Rodrigues Soares (Belém/PA)
Pseudônimo: Icamiaba
Intérprete: Amanda Ferraz
Muito antes da tua chegada
Tu já estás aqui comigo
Porque sei de tuas vindas
Ainda que calada
Seja a tua boca.
Sei do teu estro desgovernado
Amarrado
Nas linhas das minhas mãos
Teu corpo suado sobre o meu coração.
Amor de era e de hora
Amor de agora
Da ternura fugaz e itinerante
Retirante das candentes madrugadas.
Tua fome me consome
Com a volúpia indomada dos navegantes
Seca a fonte do meu cio
Represado em mananciais de solidões.
Depois abandonas a tua pele
No remanso sonolento da luxúria
E partes silencioso
Enquanto o prazer não cessa de doer
Em mim.
Tu foges para paisagens de esquecimento
Deixando apenas as marcas das tuas pegadas
Gravadas em silêncios fatiados.
13
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
COLHEITA
Autora: Helenise de Mello Bisaggio (Juiz de Fora/MG)
Pseudônimo: Lustral
Intérprete: a autora
Debaixo dos galhos retorcidos.
Difícil parturição!
Mãe despeja germe humano.
Na terra tórrida do sertão.
“- Pai, manda chuva!”
Todo ano era assim:
- A seca, a desgraça, o aborto...
“- Virgem Mãe, manda chuva!”
“- Vingou! Dessa vez vingou, em um sequinho corpo!”
“Kara Wã! Kara Wã, esse nome vai chamar.”
Vai precisar de resistência.
Vai ter muito o que rezar.
É o terço na mão, joelho no chão, penitência...
Cresce Kara Wã naquele Torrão natal.
Semeando grãos nas areias do torpor.
Regando dia-a-dia com lágrimas do coração.
Colhendo depravação, pungência, dor.
Na mesmice de sangrar todo mês.
Sem nenhuma ararinha a fazer ninho em sua cabeça.
E no meio daquela escassez, o destino...
O destino empurrava-lhe o mesmo enredo da mãe, até que o
mesmo aconteça.
“-Pai do Céu me socorre!”
O grito de gozo escoava.
Escarranchada debaixo da umburana.
Ali, a um chegado parente se entregava.
Sem parecença. Em condição subumana.
Da pele vermelha como folhas no caroá.
Frita de sol, ferida pelos espinhos em tão tenra idade.
Com a mesma saga da mãe.
Enterra na terra seca, os frutos da mocidade.
Útero, quase sempre, é colheita certeira!
Naquele lugar, única terra que semente medrava.
14
XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos
Kara Wã! Fertilidade no infortúnio.
A colheita de muita mulher

XXV Concurso Nacional de Poesias Augusto dos Anjos

Poesias Premiadas

1º lugar – Poesia

O ASSOALHO DO VELHO CASARÃO

Autor: Matusalém Dias de Moura (Vitória/ES)

Pseudônimo: Antônio Inconformado

Intérprete: Josué Oliveira

As tábuas largas do assoalho do velho casarão

que meu bisavô construiu,

meu avô herdou

e hoje são ruínas que meu pai não quis,

guardam, silenciosas,

os passos lentos de meu avô paterno

a arrastar cansados chinelos pela casa afora,

já tarde da noite,

à procura da quartinha d’àgua

para matar a sede que o atacava e aplacar a tosse pigarrenta

que, havia anos, o acompanhava.

 

Aquelas velhas tábuas de madeira de lei

guardam ruídos de vassouras varrendo restos de terra e ciscos,

sons de botinas pisando, compassadamente,

uma vida inteira de fazendeiro;

guardam marcas de pés descalços

a se arrastarem, em valsa, no último baile de casamento.

 

Naquelas tábuas, estão guardadas as histórias

de vida e morte de meus antepassados,

lágrimas caídas e dores que não me foram contadas.

Guardam também os sinais dos joelhos de minha vó em tardes

de ladainhas

e fé.

 

Ah!... Quantos silêncios guardam aquelas tábuas!...

 

2º lugar – Poesia

A QUEDA DA FOLHA

Autor: Celso José Cirilo (Uberlândia/MG)

Pseudônimo: Kearney

Intérprete: Marcos Paulo

Vai, ela,

no seu voo cool de folha lanceolada,

de inércia e ócios de tarde...

Seria o vento,

o acaso,

o inevitável?

Ou, quem sabe, o tempo do propósito?

Eis que a bainha, insensível, desatou-lhe o pecíolo,

atirando o limbo assustado ao vento decadente

Começa, ele, a sua sessão de contorcionismos

uma dança sutilmasoquista de vulto em queda

e talento inato para lidar com a própria fatalidade

Cai desenhado

um esboço de vai-e-vem,

de cai -não-cai,

de eternidade efêmera caindo na grama

à cata de quase 60 segundos

Nunca mais outra ocasião

para desnudar a sua insignificância

e ofertá-la à cegueira egoística dos transeuntes

A queda da folha é a realidade tátil

aos olhos do leitor

mas ele os têm presos a Manoel de Barros

ou, quem sabe,

estão pescando ovos de basilisco

nas declarações do Gabriel García Márquez

Quantas ilusões de quase-existências

lembranças de existências

e saudades de inexistências

ainda cabem nesse resto de voo?

Quanta espera, sonho e loucura

não reclama esse pasmo final?

E o limbo, beijando o chão,

gargalha a agonia do não mais existir

no logoali

ondequando

tempo e espaço forjam a carcaça impalatável da morte

 

 

3º lugar – Poesia

AUGUSTO CADÁVER

Autor: Gilberto Cardoso dos Santos (Santa Cruz/RN)

Pseudônimo: Amor Tecido

Intérprete: Fabrício Manca

Augusto dos Anjos, poeta da morte,

Tão jovem no leito sem vida jazia

Morreu atacado por pneumonia

Entregue ao destino que temos por sorte.

Um mal invisível mostrou-se mais forte

Impondo ao corpo feroz morbidez

Tirou-lhe do ser qualquer altivez

Trazendo à mente cruel prostração

Começa a maldita decomposição

Que prova a verdade dos versos que fez.

 

De onde vieram os versos cortantes

De góticas vestes sonoras vestidos,

Bonitos e tristes, amados, temidos,

Quais blocos de gelo no mar flutuantes?

Estrofes perfeitas e aterrorizantes

Nasceram do corpo que agora é velado

O golpe maldito enfim foi-lhe dado

A massa encefálica perdeu a batalha

Só resta o lamento e pôr a mortalha

Naquele que em vida se viu sepultado.

 

Se ele pudesse agora se ver

Cadáver em princípio de putrefação

O que comporia perante a visão

Do fim absurdo de seu próprio ser?

Talvez que viesse a se exceder

E em póstumos versos melhor descrevesse

O drama que expôs; bem mais entendesse

A dura verdade que poetizou

E aos favos de fel que armazenou

Com lúgubre gozo quem sabe sorvesse.

 

Com olhar de abutre em vida se via

À espera do instante do último alento

A perenidade de cada elemento

O punha em constante e íntima agonia

O sol do otimismo não o atraía

No vale da sombra da morte ficou

O que haveria de ser afetou

A filosofia do ser transitório

Vivia à espera do próprio velório

Com apática certeza seu afim aguardou.

 

Em breve os vermes na exuberância

Da carne sem vida, augusto banquete,

Tal como crianças lambendo sorvete

Irão deleitar-se sem repugnância

O ecossistema com certa elegância

O magro cadáver irá decompor

Quem sabe na pétala de fúnebre flor

No vivo tapete que venha a nascer

Augusto inspire alguém a dizer

Que o mundo é estranho, mas encantador.

 

 

4º lugar – Poesia

3º lugar – Intérprete

HORAS MORTAS

Autor: Aloísio Ferreira de Araújo (São Paulo/SP)

Pseudônimo: Saturnino Domênico

Intérprete: o autor

Silêncio, sombras vis do meu passado,

Demônios, corpos secos retorcidos,

Que à beira de um sepulcro abandonado,

Padeço, entre soluços e gemidos.

 

Furor e fé rastejam lado a lado,

Nas gretas dos meus lábios ressequidos,

E aos berros, feito um deus desesperado,

Enterro o mundo todo em meus ouvidos.

 

Se as horas mortas gemem triunfantes,

Ao som de sinfonia delirantes,

Tomara um novo dia nunca nasça.

 

Não vale a pena estar e ser no mundo,

Que a morte é o sono eterno mais profundo,

E a vida é o monumento da desgraça.

 

 

5º lugar – Poesia

EXÍLIO

Autor: Antônio Roberto de Carvalho (São Paulo/SP)

Pseudônimo: Faroleiro

Intérprete: Amanda Ferraz

Meus olhos são faróis sempre voltados

para o horizonte, além daqueles dunas

onde sombras de seres exilados

navegam em escunas.

 

Incautos, seguem sobre a rebeldia

do mar que os arremessa a canto algum,

rompendo os laços do que foi um dia

o lar de cada um.

 

Ancoradouros de esperanças mortas,

dilaceradas pela intolerância

que abre do inferno as insondáveis portas

com as chaves da ganância.

 

Subjugados pelos dissabores,

vagam a esmo, a espreitar o entorno,

velando o fel das incontidas dores

de não haver retorno.

 

A mão que mata não semeia flores,

nem se comove com a desgraça alheia;

promove guerras, patrocina horrores...

Com que se banqueteia.

 

Houve um tempo de risos e certezas;

de pessoas vivendo em liberdade,

mas os pilares dessas fortalezas

não eram de verdade.

 

Resta o consolo de saber que a vida

não é somente um manancial de dor;

que há de vencer a fúria genocida

o fraternal amor!

 

1º lugar – Intérprete

VERDADES ANÁLOGAS

Autora: Jeane Gislon de Menezes (Rio Grande/RN)

Pseudônimo: Allived

Intérprete: Christiane Ribeiro

Quando caminhares sobre o céu de veludo

E Pontilhar de esperanças teus caminhos,

Quando distribuíres sorrisos em bonança,

E amares de amor à temperança;

Quando engolires a angústia desmedida,

E transpirares a felicidade aguerrida,

Quando alcançares as estrelas coloridas;

E conseguires desejar da água insípida,

Verás que o impossível é controverso;

E declamarás versos,

Assim como velhas cantigas;

Florescerá em teu cerne a razão,

Tomarás posse do teu chão e,

Então acenderás;

Sob a pequenez centelha do ter,

E tal modo, perceberás;

Que o anoitecer é apenas um detalhe,

O amanhecer só um entalhe;

Na inteira completude do ser!

 

 

2º lugar – Intérprete

PATÉTICO, SUBLIME POETA

Autora: Karla Celene Campos (Montes Claros/MG)

Pseudônimo: Ângela

Intérprete: Willens Douglas

Lâmina. Espinho. Pedra.

Quem pode definir um homem?

Qual é a definição de um poeta?

 

Anulação. Aniquilamento. Decomposição.

Quanto tempo dura um homem?

Qual a duração de um poeta?

 

Pau D' Arco. Rio de Janeiro. Leopoldina.

Quem pode limitar espaços,

Se a obra rompe cenários,

Se a obra jamais termina?

 

Simbolista. Expressionista.

Pré-modernista. Parnasiano.

Em que período se insere um artista

Nitidamente contemporâneo?

 

Ceticismo. Abismos. Ascos.

Quem não vivencia

A antítese da utopia

Nesta terra de homens putrefatos?

 

Atualíssima é a angústia, sublime Poeta,

Na podridão dos dias que são os nossos,

Na falta de sentido de todos os dias,

Na distopia pós-moderna.

 

Sua agressão é nossa arma

Poética,

Patético Poeta,

Patrono de outros esdrúxulos que vieram

E que insanos escarram nas repugnâncias

E se aliviam

No delírio febril da poesia...

 

Vês? Ninguém considerou teu enterro

O fim da última quimera

Mais do que elementos químicos brotaram

Do teu não definitivo sono.

 

Permaneces.

 

A lâmina que fere é a mesma que molda.

A pedra que apedreja é a mesma que constrói.

O espinho que espeta é o que nos faz espertos.

Vês? Ninguém considerou teu enterro

O fim da última quimera.

Poesia engendra fruto,

Augusto.

Patético.

Sublime.

Esdrúxulo.

Poeta.

 

 

Demais Poesias Finalistas

 

A CULPA É MINHA

Autora: Maria Leda de Moraes Chini (Rio de Janeiro/RJ)

Pseudônimo: Balburgo

Intérprete: Nina Gani

Se teci fios de esperança

revestindo tua imagem

e esses fios que teci

foram sonhos sem valia,

sinto muito, amor:

a culpa é minha.

 

Se juntei folhas caídas

na piscina de meus sonhos

e o vento aventureiro

essas folhas separou,

sinto muito, amor:

a culpa é minha.

 

Se fiquei na encruzilhada

sem saber a direção

e os caminhos se cruzaram

em formas e opções,

sinto muito, amor:

a culpa é minha.

 

Se escolho a luz do dia

encurtando a noite escura

e me escondo na utopia,

me deixando simular,

sinto muito, amor:

a culpa é minha.

 

 

CICATRIZ

Autor: Matusalém Dias de Moura (Vitória/ES)

Pseudônimo: João Pureza

Intérprete: Josué Oliveira

Foi puro e foi bonito o nosso amor;

fez-me sonhar, tomado de alegria,

mas, de repente, entrou em agonia

e, logo, perdeu todo o seu calor,

 

deixando minha vida sem sabor

e sem aquela ingênua fantasia

que, agora, na malvada nostalgia,

vem-me, sorrindo, cheia de fulgor.

 

Ao relembrar aquele amor vivido

nos dias do passado mais querido,

Sinto fincar-me o espinho da saudade

do tempo em que, confesso, fui feliz

e que deixou em mim a cicatriz

desse amor que foi todo intensidade.

 

 

CLANDESTINO

Autora: Zenilde Rodrigues Soares (Belém/PA)

Pseudônimo: Icamiaba

Intérprete: Amanda Ferraz

Muito antes da tua chegada

Tu já estás aqui comigo

Porque sei de tuas vindas

Ainda que calada

Seja a tua boca.

 

Sei do teu estro desgovernado

Amarrado

Nas linhas das minhas mãos

 

Teu corpo suado sobre o meu coração.

 

Amor de era e de hora

Amor de agora

Da ternura fugaz e itinerante

 

Retirante das candentes madrugadas.

 

Tua fome me consome

Com a volúpia indomada dos navegantes

Seca a fonte do meu cio

Represado em mananciais de solidões.

 

Depois abandonas a tua pele

No remanso sonolento da luxúria

E partes silencioso

Enquanto o prazer não cessa de doer

Em mim.

 

Tu foges para paisagens de esquecimento

Deixando apenas as marcas das tuas pegadas

Gravadas em silêncios fatiados.

 

 

COLHEITA

Autora: Helenise de Mello Bisaggio (Juiz de Fora/MG)

Pseudônimo: Lustral

Intérprete: a autora

Debaixo dos galhos retorcidos.

Difícil parturição!

Mãe despeja germe humano.

Na terra tórrida do sertão.

 

“- Pai, manda chuva!”

 

Todo ano era assim:

- A seca, a desgraça, o aborto...

“- Virgem Mãe, manda chuva!”

“- Vingou! Dessa vez vingou, em um sequinho corpo!”

 

“Kara Wã! Kara Wã, esse nome vai chamar.”

Vai precisar de resistência.

Vai ter muito o que rezar.

É o terço na mão, joelho no chão, penitência...

 

Cresce Kara Wã naquele Torrão natal.

Semeando grãos nas areias do torpor.

Regando dia-a-dia com lágrimas do coração.

Colhendo depravação, pungência, dor.

 

Na mesmice de sangrar todo mês.

Sem nenhuma ararinha a fazer ninho em sua cabeça.

E no meio daquela escassez, o destino...

O destino empurrava-lhe o mesmo enredo da mãe, até que o

mesmo aconteça.

 

“-Pai do Céu me socorre!”

 

O grito de gozo escoava.

Escarranchada debaixo da umburana.

Ali, a um chegado parente se entregava.

Sem parecença. Em condição subumana.

 

Da pele vermelha como folhas no caroá.

Frita de sol, ferida pelos espinhos em tão tenra idade.

Com a mesma saga da mãe.

Enterra na terra seca, os frutos da mocidade.

 

Útero, quase sempre, é colheita certeira!

Naquele lugar, única terra que semente medrava.

Kara Wã! Fertilidade no infortúnio.

A colheita de muita mulher brasileira.

 

COM AMOR E COM FARINHA

Autor: José Acaci Rodrigues (Parnamirim/RN)

Pseudônimo: Macaíba

Intérprete: Christiane Ribeiro

Ainda de madrugada

o menino levantava,

e depois que se fartava

saía para o terreiro.

Galos, galinhas, guinés...

Carreiras, freios, revés...

Arranhões, furos nos pés...

Coisas de quem é arteiro.

 

A manhã ia passando

e o menino brincando,

no seu quintal, se sujando,

mas era feliz assim.

E quando ele exagerava

e um bicho reclamava,

lá de dentro a mãe gritava:

- Pra dentro, moleque ruim!

 

Quando a barriga roncava,

um grito de mãe chamava,

ele corria e sentava

na hora de almoçar.

A comida bem quentinha,

com amor e com farinha,

torneava a barriguinha

que fazia arredondar.

 

Quando o sol amarelado

sumia do outro lado

o menino, já cansado,

ia tomar seu mingau.

E logo que se deitava

ele dormia e sonhava,

e, sonhando, ele brincava

com os bichinhos no quintal.

 

FIM DA ESTRADA

Autor: Luna Fernandes (Rio de Janeiro/RJ)

Pseudônimo: Caminhante

Intérprete: Luiz Junior

É quando o fim da estrada se aproxima

que nós tememos mais o fim da estrada...

E tememos ouvir essa chamada

de uma voz que parece vir de cima...

 

Nossa esperança, então, fragilizada

vai em busca da fé, em que se arrima

- essa fé que, por vezes, reanima

e, por vezes, nos faz não crer em nada...

 

Mas seguimos a nossa trajetória

resistindo, na luta sempre inglória

- já que, ao final, não há quem sobreviva...

 

E à medida que encurtam os espaços,

 

vamos contando os nossos próprios passos

 

 

 

MAR IMAGINÁRIO

Autor: Sérgio Bernardo (Nova Friburgo/RJ)

Pseudônimo: Daniel Ladeira

Intérprete: o autor

Praia dos pensamentos náufragos

espalhados em um oceano sem fim,

a palavra salva o que vejo.

 

Toda imagem de colho

tem reflexo no mar que penso,

uma ilha distante, um navio, um mastro

contra o vento e a tempestade.

 

A palavra salvadora de memórias

ancoradas em cais fictícios,

na captura de sons e de silêncios

tentada sobre as águas dos meus olhos,

enquanto sol quer cegá-los,

afogando neles o que na paisagem

era espanto e descoberta.

 

A cada mudez

estou sem ar mesmo na superfície

quando as ondas sob mim se movem.

Alcançada a palavra,

tocando-lhe as areias cobertas de conchas,

é que outra vez respiro

e limpo o sal de toda lágrima entre o mergulho

e a emersão para a claridade.

 

A ideia flutua: uma alga

na espuma esverdeada. O sonho acontece

entre as árvores da orla, dentro do farol,

na pedra quase submersa.

E, inteira, a praia se acende

como uma estrela que ressuscita.

E eu viro pescador e peixe, e me transformo em rede

arremessada pelo tempo.

 

 

MINHAS ASAS

Autor: Allisson Francisco de Matos (Curitiba/PR)

Pseudônimo: Xuxu de Xocolate

Intérprete: Kiko Loçasso

A ti confio o sonho que me chama

Mais alto, nessa vida de verdades,

Que pulsa entre singelas crueldades,

E assim, de tão atroz, a mente inflama.

 

Se sempre a morte à mente se proclama

No leito de uma algoz felicidade,

Eu salto e voo nessa liberdade

De vida que meu sonho me declama.

 

Teus olhos, meu oráculo sagrado,

São brilhos de um vulcão acalentado

No céu, em toda a sua imensidão...

 

E ao voo do meu anjo, alto, risonho,

Eu deito no seu colo e durmo e sonho:

 

As asas não me cabem no caixão!

 

 

O CORAÇÃO

Autor: Paulo Cezar Tórtora (Rio de Janeiro/RJ)

Pseudônimo: Ana Carter

Intérprete: Altair Xavier

O coração é um frágil barco à vela

Quando no mar do amor, em aventura

Adentra, tal fosse uma caravela

Vencendo o oceano com desenvoltura.

 

Entretanto, há que se ter cautela

Pois o alto mar, com sua envergadura,

Oculta a fúria e o fragor da procela

No seio austero de sua noite escura.

 

Fazer-se ao largo ignorando os sinais

Da treva horrenda sobre a onda bravia

É uma quimera arriscada demais.

 

Ao fim da ilusão, sem norte e euforia,

Talvez não se possa voltar jamais

Ao cais feliz que foi deixado um dia...

 

 

 

OCO DOMINGO

Autor: Carlos Uitalo dos Santos Castro (Salvador/BA)

Pseudônimo: Witalo Wonka

Intérprete: o autor

A casa vazia,

Os discos no chão,

O vento na fresta

E a alma na mão...

Que tarde sem gosto

E as horas não passam!

Pirraçam ponteiros,

Ponteiros pirraçam...

Que tarde vazia!

Meu corpo no chão,

Reparo na festa

Que faz Solidão.

O tempo indisposto

E as horas não passam!

Pirraçam ponteiros,

Ponteiros pirraçam...

Que tarde vazia!

Arroz e feijão...

Um copo pretende

Me dar ilusão

- Que o vinho é sem gosto

E as horas não passam! -

Pirraçam ponteiros,

Ponteiros pirraçam!

Lá fora irradia

Um sol de verão,

Cá dentro um deserto

Se fez cada vão.

Me rendo ao desgosto,

Se as horas não passam:

"- Me façam ponteiros,

Ponteiros me façam!"

 

8/8/16

23h19

 

OPSÍGONO

Autor: André Telucazu Kondo (Jundiaí/SP)

Pseudônimo: Jeremias Sanlape

Intérprete: Luciano Rodrigues

I

Meus opsígonos dentes

só nasceram

para o incômodo ato de preencher

vazios

sorriso tardio – que ninguém vê

 

Um galho sobre o muro foge pela calçada

mãos de crianças em aurora

com pequenos molares ávidos

trituram as amoras

brutalmente

elas ainda não sabem

que as amoras foram feitas

pra se dissolverem gentilmente, sem pressa?

 

O céu-da-boca

testemunha as amoras

mas nunca saberá

o que só a língua sente

no chão

 

II

Por que o olhar dela revelado

na moldura dos anos

ainda busca o meu olhar?

não são cegas as imagens

pregadas nas paredes

como cristos alheios?

 

Não é silêncio

a boca em eterno riso

de uma foto matrimonial

em que o sim disparado

atinge como um nunca mais o coração?

A maquiagem é a poeira

que esmaece o vítreo rosto

quando a cor partiu?

 

Da janela, as amoras

desafiam o desbotado dos dias

ninguém se importa

 

III

Reluto em exumar as lembranças

daquele túmulo em forma de arca

o baú dela quando aberto

tem forma de boca

que não sorri

apenas devora os dias

por isso me afasto

para não ser devorado

nem o espanador o toca

a dor não pode ser espanada

as penas supõem leveza

e não há mais voos

guardados

 

Toda a consorte herança

inventariada

como se tudo o que vivemos juntos

pudesse ser catalogado

em trastes

eis aqui quinze mil e seiscentos pores do sol

cinquenta e três dúzias de rosas brancas

trinta e sete viagens ao mar

trezentos e um jantares no pequeno restaurante da esquina

umas tantas mil amoras colhidas

e nenhum filho

 

Mais do que as coisas de dentro

do velho baú

o pó sobre o tampo

tem mais memória...

e guarda o sorriso

 

que jamais sorri.

 

 

 

RODA DA VIDA

Autor: Leandro Campos Alves (Caxambu/MG)

Pseudônimo: Destino

Intérprete: Fabrício Manca

A vida nos ensina,

cuida, castiga e reprime.

Ama, revolta e oprime.

Alegria, felicidade e verdade,

são opostas dessa realidade.

 

Subimos ao céu dos prazeres,

e caímos, ao inferno dos deveres.

Somos homens imperfeitos e errantes,

somos todos do destino marcantes.

 

Passageiros desta louca roda chamada vida.

Nossos destinos são normas prescritas?

Ou, escrevemos a nossa própria vida?

 

Nossos dias passam,

são segundos, minutos, horas.

Os anos podem ser longos,

curtos não importa.

Somos todos passageiros deste expresso,

esperando o nosso regresso.

 

Se viemos da eternidade para a vida,

e vivemos preparando para o retorno,

por que entramos neste expresso?

 

Amores nascem e morrem.

Vidas crescem e povoam.

Como os dias que se sucumbem na escuridão da noite,

um dia nos renderemos ao cansaço do tempo.

E a noite será eterna.

 

Mas a escuridão também tem seu apreço,

que nos mostrará o outro lado da alma.

Do espirito, do destino, da fé.

 

Quando o desembargue dessa roda da vida,

na estação da morte chegar.

Vamos encontrar o nosso lugar,

e descobriremos que a vida só vale a pena,

se vivermos a cada momento,

como se fosse o derradeiro segundo,

da vida louca deste mundo.

 

 

SACOS DE LIXO

Autor: Carlos Ricardo de Oliveira (Juiz de Fora/MG)

Pseudônimo: Tigre da Ásia

Intérprete: Christoff Silva

A escuridão manchava as nuvens

de negro piche

e embaixo machucava o chão

de preto breu.

Não era escuridão total

qual paredão

murando e pondo na prisão

o pouco olhar

do derradeiro transeunte

que ali passasse

passos cansados seus de um dia

já bem passado.

Não era escuridão maior

como carvão

que alguns borrifos das estrelas

vivas no céu

e um tosco chuviscar de lua

já bem minguante

molhavam a mortiça rua

de alguma luz.

Sem sono um vento bem teimoso

arrepiante

ia raspando nas paredes

os seus ruídos.

Ia sozinho assobiando

todo embrulhado

em rotos trapos de neblina

toda esgarçada.

Portas, janelas bem trancadas

cheias de medo

guardando dentro mil segredos

dos moradores

um quê conferem de soturno

ao ambiente

do beco envolto por noturnos

sem melodia.

Naquela fria noite eu sigo

vou solitário

e adiante vejo amontoados

sem nitidez

sacos de lixo - deformados

no chão jogados.

Porém mais próximo chegando

sem querer ver

vejo que na calçada os sacos

ali deixados

de lixo? Não! São de crianças

adormecidas

sonhando com anjos e fadas

enquanto a noite

lenta e calma segue a esperar

um novo dia

que vai raiar sem ter crianças

jogadas - lixo - pelas calçadas

 

XXV CONCURSO NACIONAL DE POESIAS AUGUSTO DOS ANJOS

 

Leopoldina, MG

2016