Lúcia Helena.

Lúcia Helena.

        Uma obra, uma história, um destino decorrido de sonhos ou da experiência da vida?

        Pelo caminho literário encontramos poetas e poetisas, escritores da vida e de sonhos, e com este carinho quero apresentar esta escritora de Franca, São Paulo, que a experiência de sua idade nos traz o prazer de seus textos expressos pela idade de sua sabedoria.

Leandro Campos Alves,

2015

 

 

        Sou Lúcia. Lúcia Helena. Nunca acreditei em destino, acredito em escolhas: ao fazer opção por um determinado caminho sua vida segue um determinado curso. Não acredito em destino e sou Peixes: dois espécimes nadando em direções opostas, correndo um em volta do outro, sem qualquer possibilidade de encontro. Sendo de Peixes, sou duas: uma “peixa” cor de rosa, romântica, doce, submissa, carinhosa e passiva que vive na lua, sonhando acordada, feito boba. Convivendo com ela – o que não é fácil – está a outra. Voraz, aguerrida, corajosa, ousada, atrevida, contraditória, sensual, a que não tem medo (apesar de saber medir consequências) de assumir o que quer e ir em frente quando se dispõe a fazer alguma coisa. A maior vantagem da primeira: saber esperar vencer resistência, às vezes a sua própria. Da segunda: recuar quando precisa. Luta porque não sabe perder, mas percebendo sua impotência, sai de cena, admite ter sido derrotada, levanta, sacode a poeira e, lá na frente – distância imprevisível - consegue dar a volta por cima porque é volúvel como a roleta, deusa do luxo e do prazer... Não acredito em destino, sou Peixes e possuo tesouros imensos: grandes experiências, oportunidade de aprendizagem a todo instante, revelações, tudo isso caracterizado pela busca incessante do resultado final de sinuosas, complicadas, emaranhadas e confusas equações, que pessoalmente me encarrego de formular. Minha vida é uma sucessão de grandes momentos. Dolorosos e doloridos momentos. Deliciosos e alegres momentos. Inesquecíveis momentos. Momentos: de permanente, pouca coisa. Não raro, me surpreendo. Com as descobertas, por exemplo. De repente percebo que é fácil, muito fácil, ser sonho na vida dos outros. O que não é fácil é ser realidade. Já fui sonho e imaginação de muita gente e fui realidade na vida de quase ninguém. Sou mulher que sobe na jabuticabeira com as netas, adora comer pastel na feira onde é amiga dos feirantes. Enrola-se com guardanapos quando fica nervosa, deixa o garfo cair no restaurante, se lambuza, assovia com os dedos, disputa campeonato de arremesso pela boca de sementes de fruta à distância, é craque no bugalho, absolutamente perfeita na produção de pipas – tem até medalha. Coisas de quem nasceu sob o signo de Peixes...

 

Pecados? Que nada!

 

        Se formos analisar fria e desapaixonadamente todas nossas ações do cotidiano, nenhum de nós vai ganhar o reino dos céus pela observância dos rigorosos Dez Mandamentos recebidos por Moisés na montanha.  Se não forem mudados ou aplicados segundo outros critérios, menos inflexíveis, vamos queimar nos Infernos, numa imensa pira coletiva, mesmo porque tanto é considerado culpado quem peca na prática quanto na intenção. Não vai escapar, igualmente, quem provoca a situação. Ilustrando com um exemplo atual: pegue-se o nono, aquele que proíbe a cobiça da mulher alheia.  Pense-se numa popozuda sazonal.  Vão para o orco em conjunto: ela, que aceitou a cobiça, o “proprietário” dela que a permitiu ser cobiçada, todos os que a cobiçaram, mesmo no papel ou nas telas...
        Não bastassem esses dez, ainda inventaram os Sete Pecados Capitais.  Nossos mais puros impulsos humanos, de repente viram-se sob pesados regimentos e proibições.  Passou a ser transgressão ter Ódio – desde que não fosse por uma nobre causa.  A Avareza passou a ser vista como ruim – se as riquezas não fossem acumuladas em nome da religião. A Gula,  começou a ser vista como indesejável – ninguém explica banquetes que sucediam cerimônias religiosas. A Luxúria,  proibidíssima – atos sexuais só com o nobre propósito de procriação. A Preguiça, defeito seríssimo – quando entre a população pobre.  A Inveja, feiúra! – desde que o objeto invejado pertencesse a confrades e compadres. Orgulho –  indignidade! – altivez, amor-próprio podem levar às trevas...  E a Vaidade – uma afronta...
        Homens e mulheres do mundo cristão, recebemos essas diversas e específicas instruções como base para desenvolvermos nossas relações. Foram-nos apresentadas, embora de forma rígida, suavizadas com o doce nome de ensinamento de preceitos morais. Se de um lado regulamentaram nossas atitudes, de outro castraram um bocado  a gente.
        Rebelemo-nos! É importante sentir Ódio para provocar insurreições e elas, descobertas: passividade não é  ambiente propício ao desenvolvimento humano.  A Avareza é fundamental para a manutenção do espaço físico e psicológico onde pretendemos viver.  Convenhamos, não despertar a Gula significa reduzir o sublime ato da degustação à  pequenez de  satisfazer  a fome para sobreviver.  Impedir a Luxúria é bloquear uma satisfação íntima, uma possibilidade de prazer indescritível e tornar banal uma ocasião de profunda cumplicidade com outro ser humano.  Impossibilitar a Preguiça é endurecer-se e, pior, interromper o ciclo fortificante da saúde física e mental.  Afrouxar a Inveja é anular o vislumbramento de novos exemplos e ideais, é cegar-se.         Neutralizar e deixar de expressar o Orgulho é eliminar a auto estima, é desconsiderar-se como elemento importante na ordem das coisas do mundo.
        E  tolher a Vaidade... isto sim é pecar!  É através dela que nos analisamos e nos aceitamos.  Admiti-la significa buscar padrões para nos tornamos melhor física e mentalmente. Temos ideais de beleza e bem-estar. Ora precisamos nos sentir parte de um grupo e achar a identidade necessária para essa integração: a vaidade nos abre essa possibilidade. Ora precisamos nos diferenciar e valorizar aspectos pessoais: a vaidade oportuniza essas descobertas.          Só a vaidade consegue nos levar à frente do espelho e permitir a sensação de amar-nos incondicionalmente...  Homens, pequemos! Afinal somos criaturas e criadores da nossa felicidade.

 

Lúcia Helena

 

 

Ainda na cama

 

        Ah! essas manhãs de outono... Ligeiramente frias, Sol intenso, verde reluzindo, brisa balançando galhos das trepadeiras preciosas que exibem viço especial através de mudas herdadas da mãe, da avó, da sogra e do sogro, da mãe da nora. Percebe, cada um colaborou – em tempos diferentes - com colorido especial para que esta particular manhã fosse configurada.

        ... E aí o pensamento, que parece mesmo uma coisa à toa, voa e se lembra. Lembra, por exemplo, da secretária da escola primária onde começou a trabalhar como gente grande, que ligou dias atrás solicitando sua presença para ler as crônicas que publica nos jornais: ela ficou cega, mas adoro que leiam para ela. Prometer, prometeu mas ainda não cumpriu.

        Lembra de John Done, o poeta. Nenhum homem é uma ilha isolada, que fazemos parte de um continente, de uma imensa irmandadade, que estamos conectados uns aos outros, que todos juntos formamos uma única teia, que não se justifica perguntar por quem os sinos dobram: eles dobram por nós.

         Lembra do aniversário de quatro anos da neta mais velha, transcorrido há pouco e da emoção de participar ativamente da festa ao “desaprisionar” (que não é a mesma coisa que libertar) sua própria criança enclausurada pelas convenções e adequações sociais, subir na árvore, assoviar com os dedos na boca e, pela mesma boca, arremessar feito torpedo as sementes de laranja.

        Lembra dos bailes onde ia para dançar na mocidade, tão diferentes dos realizados hoje! Sentiu muito prazer na oportunidade de revivê-los na última semana e teve coragem de enfrentar a comparação do que foi com o que é, do como estamos com o que fomos... Percebeu a importância de cada momento e cada acontecimento nos resultados estampados e visíveis em cada rosto, expressão, nas marcas do tempo.

        Nessa manhã particularmente, nessa manhã friazinha e romântica, ainda na cama, compromete-se a ir pessoalmente ler essas palavras (que ainda nem foram escritas, só foram pensadas) para a ex-secretária daquele grupo escolar. Sabe-se parte do continente humano. Percebe-se livre desde quando libertou sua criança interior. Gosta-se porque está aprendendo a se perdoar e louvar todo acontecimento do seu cotidiano. Sente-se feliz: está aprendendo a bordar segundo seu próprio desenho, escolhendo – por sua conta e risco – as cores a serem usadas.

 

Lúcia Helena

 

 

        Para conhecerem mais o trabalho literário desta Escritora, convido aos amigos leitores a conhecerem sua página no Recanto das Letras através do link:www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=10733

 

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