Instituto Camões-Literatura Portuguesa.

Instituto Camões-Literatura Portuguesa.

Vamos conhecer um pouco desta riqueza cultural através do artigo abaixo do Portal “Centro Virtual Camões”.

 

Contemporâneos

 

Como determinar critérios para definir o que é do nosso tempo? Aceitar o que coexiste connosco? Mas connosco, quem, de entre nós, uma vez que as idades são diferentes, e as ideias, as sensibilidades e os valores também? Podemos talvez considerar que essas diferenças são justamente marca de um tempo ainda não filtrado pela sistematicidade de um ponto de vista histórico, e atentar na sua coexistência como sinal de variedade e riqueza, ou mesmo de imperfeição do nosso olhar, que em contrapartida nos transmite a vibração da incompletude de tudo o que vive, e por isso pulsa, dura e se transforma.

Contemporâneos a escrever, em Portugal. Alguns vultos tutelares, personalidades maiores, escritores de referência, mais ou menos afastados do nosso quotidiano, emergindo na imprensa, TV, ou morando mesmo ao nosso lado, frequentando a nossa praia, indo, como nós, ao supermercado ou ao cinema. Outros, menos tutelares, que escrevem nos periódicos, que recebem prémios, mais jovens, mais precários. Todos a fazer-nos pensar sobre o mundo e a vida, a fazer-nos emergir da nossa condição de leitores à partida passivos, mas determinados na atitude de escolha, que só pode exercer-se a partir do conhecimento. Tentemos, pois, conhecer.

 

Em Arte Poética II, Sophia de Mello Breyner Andresen (n. 1919) escreve:

A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.

Para Sophia, a poesia é, pois, encontro do ser com o concreto do mundo, e repare-se como, explicitando o que para si é a poesia, a autora insensivelmente já está a fazer poesia, comunicando a sua percepção das coisas através da transfiguração da palavra poética.

Publica livros desde 1944 (também prosa de ficção, e livros para crianças como A Menina do Mar e A Fada Oriana, 1958), e um dos seus grandes temas é o mar, com a luminosidade de conhecimento solar e a regularidade de reconstrução do movimento, ou respiração vital, que ele comunica, ou mesmo na epifania do mundo. Em Dia do Mar (1947), «Navegação»:


Distância da distância derivada
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.

Muito sensível às implicações culturais da política e do sentimento da liberdade, exprime por vezes a pequenez dos ambientes que a opressão social sufoca. Em Livro Sexto (1962), «Exílio»:

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.

 

 

 

 

Em Eugénio de Andrade (n. 1923), a poesia dos elementos é também poderosa, mas quase sempre reportada ao amor - da natureza, dos seres e do corpo. Muito sensual e literária, plástica e musical, a sua poesia concebe-se como reelaboração da palavra até um limite de despojamento que parte do mundo (agudamente percebido) para reencontrar nele o ser eleito e, em última análise, a solidão como reduto essencial. «As palavras interditas» (1951), poema de culto para várias gerações:

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Eugénio tem a faculdade de articular o circunstancial com o absoluto, de perceber num ambiente concreto a voz de comunicação que o levará à inscrição poética, à transfiguração modelar, numa expressão límpida e pura muito própria. Em Memória Doutro Rio (1978), «Com a manhã»:

Vem dos lados do rio, as mãos fresquíssimas, algumas gotas de água ainda nos cabelos. Com a manhã chega o anónimo respirar do mundo. Um cheiro a pão fresco invade o pátio todo. Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema.

 

 

 

 

 

António Ramos Rosa (n. 1924) intelectualiza (não só nos seus inúmeros livros de poesia, mas também em ensaios sobre a criação literária e de interpretação poética) a articulação entre os elementos naturais e a cultura, mas mantém a vibração inteira do apelo pela expressão livre do homem e pela sua sagração no labor da palavra. Em Viagem através Duma Nebulosa (1960), ficou célebre este poema:

 

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas
(...)
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração

Posteriormente, a austeridade de expressão apurou-se na sua poesia, extremamente reduzida no plano da sintaxe, tanto quanto luxuriante nas insistências vocabulares e numa inexaurível irradiação semântica, quase sempre em torno da relação amorosa e da relação com a escrita. Em O Incerto Exacto (1982):

O desejo       A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a

Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem do que será
se for        o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo

 


 

Na ficção, Agustina Bessa-Luís (1922) afirmou-se com A Sibila (1954), que cria um modo muito próprio de narração no romance, utilizando constantes derivações em relação ao discurso romanesco central, mas escapando à tendência abstractivante que daí resulta, através de um regionalismo radicalizado em atitudes psicológicas peculiares e de um estilo centrado na subjectividade dos juízos narrativos.

Ah, rotina doce dessa vida em comum, porém extraordinária de independência e qualidade solitária! A fazenda progredia, iam envelhecendo as mulheres; os cabelos que eram há pouco ainda castanhos apareciam grisalhos, depois brancos; Joaquim abandonava de todo o seu cargo de lavrador, raramente vigiava os moços ou escolhia o gado e até deixava de visitar a amiga, seca e escura como um tronco castigado dos temporais. Bebia de madrugada a sua dose de aguardente que o mantinha numa benévola e distraída disposição durante todo o dia; tinha uma embriaguez discreta, quase afável, e delicados sonhos povoavam-lhe a mente.

Os Quatro Rios, 1964

 

 

 

 



Desenvolve no seu romance uma concepção do tempo que sublinha a sua qualidade de duração interior e de continuidade, que prolonga até à sua ficção mais recente, em A Corte do Norte, 1987, ou O Concerto dos Flamengos, 1994. 

Também pela qualidade ficcional do tempo interior se destaca Maria Judite de Carvalho [1921-1998], esplendorosa revelação nos contos de Tanta Gente, Mariana!,1959, ou na novela romanceada As Palavras Poupadas, 1961, onde emergem personagens de fundura psicológica matizada de finas implicações sociais, patentes em recortes de miúdos gestos ou de imperceptíveis atitudes e julgamentos:

Levanta-se da mesa. Lá fora, num relógio qualquer, batem duas horas. Daí a momentos, daí a uma eternidade, levantar-se-á da mesa outra vez. E amanhã. E depois. E daí a muitos anos. Tudo morre à noite, dizia Claude. Mas não, a vida é longa, desliza e escorre sem uma quebra. Uma sucessão de acontecimentos, uma corrente sem fim de palavras ditas e de palavras poupadas. Dessas principalmente.

As Palavras Poupadas

Decorre desta concepção narrativa uma atenção ao desfiar do tempo quotidiano e às personagens incaracterísticas da circunstância comum que levam a autora à prática da crónica (Seta Despedida, 1994) e à atenção ao fragmentário que pode concretizar-se no conto (Flores ao Telefone, 1968).

 

 

 

 

Urbano Tavares Rodrigues (1923) escreve regularmente desde os anos cinquenta, durante os quais se revelou como contista talentoso (Uma Pedrada no Charco, 1958) e como romancista receptivo ao estado da sociedade contemporânea e à evolução da escrita literária (ex. Bastardos do Sol, 1959, e A Hora da Incerteza, 1995). O amor, a intervenção social e política, a cidade de Lisboa e a região do Alentejo são os seus temas dominantes, cuja natureza e circunstância persegue com insistência e insatisfação:

Almoço (a Adriana está a reaprender as comidas alentejanas) uma fabulosa sopa de beldroegas com queijo e ovo escalfado. É a minha infância que regressa, quase intacta, nesse sabor. Os cílios da minha irmã a baterem muito, interrogativos e indignados, quando lhe roubo do prato, à sorrelfa, o bocado de queijo de ovelha, delicioso, que de direito, direitíssimo, lhe cabia. Já está com lágrimas nos doces olhos castanhos e eu, repeso, de colher no ar, a querer-lhe restituir o objecto da sua mágoa.

A Hora da Incerteza






José Cardoso Pires (1925-1998) esteve desde sempre ligado à ficção de implicação social, por vezes aliando as concepções neo-realistas às existencialistas (O Anjo Ancorado, 1958), e notabilizando-se por um estilo seco e enxuto que maneja com extrema sobriedade, desde O Hóspede de Job, 1963, a Balada da Praia dos Cães, 1982.

Pássaros pontilhando a ramaria, o horizonte do mar por cima da copa das árvores e entre o céu e a linha de água uma luzinha fria a caminhar para o crepúsculo. Um petroleiro? Elias demora-se a olhar. Tempo ao tempo. Só no dia seguinte começará o inventário dos sinais e dos palpites, confiado como sempre no Velhaco das Algemas. Tempo ao tempo. Mais depressa se apanha um assassino que um morto, porque, como dizia o outro, o morto voa a cavalo na alma e o assassino tropeça no medo.

Balada da Praia dos Cães

Mais recentemente, Alexandra Alpha, 1987, e De Profundis - Valsa lenta, 1997 dão conta de um insanável gosto de ficcionar a realidade mais próxima e comum no que ela, através da percepção do ficcionista, pode revelar de inverosímil, excepcional e inacessível ao olhar humano.
 

 

 

 

José Saramago (1922), embora só comece a publicar muito mais tarde, em poesia, crónica e conto, só com os romancesLevantado do Chão, 1980, e Memorial do Convento, 1982, atinge uma popularidade que não deixa de crescer, no plano nacional e internacional. Ficcionaliza momentos particulares da história e da cultura de Portugal (O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1944, História do Cerco de Lisboa, 1989) ou entrevê períodos de distopia ucrónica (Jangada de Pedra, 1986) e inlocalizável (Ensaio sobre a Cegueira, 1995, Todos os Nomes, 1997) que dão conta de uma reversão do homem ao seu confronto necessário, e nem sempre afortunado, com a comunidade, numa escrita particularíssima que põe em relevo uma frase longa e progressivamente elaborada por uma instância autoral que emerge e não se demite do seu papel de seleccionar e de julgar, assim fundamentando a ideia da criação literária.

 

Aqui têm, disse o escritor. A mulher do médico perguntou, Posso, sem esperar a resposta pegou nas folhas escritas, umas vinte seriam, passou os olhos pela caligrafia miúda, pelas linhas que subiam e desciam, pelas palavras inscritas na brancura do papel, gravadas na cegueira. Estou de passagem, dissera o escritor, e estes eram os sinais que ia deixando passar. A mulher do médico pôs-lhe a mão no ombro, e ele com as suas duas mãos foi lá buscá-la, levou-a devagar aos lábios, Não se perca, não se deixe perder, disse, e eram palavras inesperadas, enigmáticas, não parecia que viessem a propósito.

Ensaio sobre a Cegueira

 

 

 

 

 



Augusto Abelaira (1926), ficcionista de renome durante os anos sessenta (Cidade das Flores, 1959, As Boas Intenções, 1963), correspondeu aos anseios de uma geração que propunha a renovação social e política num contexto cultural de consciencialização e responsabilidade, no qual a arte e a literatura ocupavam lugar determinante. Bolor, 1968, é um romance que manifesta a desagregação dos sentimentos e a oscilação das convicções, numa escrita narrativa profundamente inovadora que o seu autor continuaria a desenvolver subsequentemente, questionando a lógica da comunicação e da sucessão do tempo, e por isso mesmo afirmando a fidelidade a valores fundamentais como o amor e a criatividade (O Bosque Harmonioso, 1982, Outrora Agora, 1996).

Agora, ele (ele, o Jerónimo) ali à varanda, trinta anos depois, a gozar o sol, os olhos no mar («la mer, toujours recommencée»). Mas lá em baixo, acinzentado, na avenida paralela à praia, um automóvel chega e, a curva rápida, sem hesitações, enfia-se entre dois carros -, manobra fulminante, milimétrica. O Jerónimo tê-lo-ia arrumado mais devagar, avaliando, atento, o estreito espaço disponível - daí a curiosidade com que espera o aparecimento do herói (será certo que a civilização chinesa, ao contrário da europeia, não celebrou os heróis guerreiros, considerava-os até seres inferiores? Esparta, modelo secreto da civilização ocidental. Herói sem penacho na cabeça, como Heitor, o do capacete fulgente. Telefonar à Marta (esqueci-me de pagar o telefone, o aviso ficou em cima do frigorífico).

Outrora Agora
 

 

 

 

 

 

Maria Velho da Costa (1938), revelação romanesca fulgurante com Maina Mendes, 1969, centrado na figura feminina que assume a ancestralidade, a rebeldia, o prazer, a criação e a dor como lugares de afirmação do ser, prolonga esta temática em Casas Pardas, 1977, que evidencia o seu modo poliédrico de compôr textos em registos diferenciados de discurso, porém de orgânica composicional sempre segura e coesa, e veiculando uma pungência de sensibilidade que confere ainda mais acutilância ao seu rigor formal (igualmente afirmado posteriormente em Missa in Albis, 1988, ou Dores, 1995).

 

Ah, digo-lhe que há um descontentamento que contenta, o tagarela, o que pode dizer-se com justeza e ouvir-se com gravidade, há festins de descontentamento e que bodo temos tido a esta vocação de carpidores que logo nos toma quando não estamos de partida. Creio mesmo que a saudade é amargor de paragem, não de distância. E isso me bateu ontem, de novo, cada vez mais certamente, no cais de Alcântara com as gaivotas adormentadas como pequenos patos, quietas no baloiço das águas, que reles somos quando não temos para onde ir.

Maina Mendes



 

 

 

 

Almeida Faria (1943): Muito jovem, publicou dois excelentes romances, Rumor Branco, 1962, e A Paixão, 1965 que revelam um talento seguro na arte de narrar, praticando simultaneamente inovações espectaculares, de desarticulação discursiva e de hibridez de modalidades, na escrita romanesca. A sua carreira posterior tem-se mantido regular, sublinhando os efeitos intertextuais (nomeadamente incluindo textos da arte e da comunicação em geral) e uma aguda ironia que afirma uma vocação satírica na observação de costumes e de ambientes político-sociais, nomeadamente na transição do 25 de Abril (Lusitânia, 1980, O Conquistador, 1990).

A morte os aflorou, com sua negra asa, com seu mistério fino e arrepiante e cavo, e então os homens viram quão sós e só entregues a si mesmos estavam e ao seu nada; mas o perigo passou, ou pensam que passou, e as bocas, ainda há pouco pejadas de desgraça, unem-se já para soltar um uivo ou um soluço, o uivo de cada cão que escapou à tormenta e sente o sabor da morte ainda em cima, o soluço de alívio e também de tristeza daqueles que se livram dum infinito túnel.

A Paixão

 

 

 

 

António Lobo Antunes (1942) foi a grande revelação do final da década de oitenta, com dois romances de grande êxito:Memória de Elefante e Os Cus de Judas, que traçam, numa escrita desenvolta e de prodigiosos efeitos metafóricos, uma visão deceptiva da guerra colonial e da geração que de forma contrafeita lhe deu corpo. De produção romanesca regular a partir de então, tem alcançado grande projecção internacional e mantém uma aguda consciência crítica do ambiente contemporâneo e da memória nacional do passado recente, com Auto dos Danados, 1985, ou Manual dos Inquisidores, 1996, ou mesmo do passado português mais glorioso, em gesto simultâneo de homenagem e de libelo acusatório e dolorido (As Naus, 1988).

Não são só os ratos, aliás, que moram connosco no sótão. Possuímos um jardim zoológico completo de formigas, melgas, traças, centopeias, aranhas, grilos, carunchos, que presumo alimentarem-se da mesma falta de comida do que nós, sem contar as borboletas que se esmagam contra as lâmpadas, no verão, e se reduzem de imediato a um pozinho escuro de verniz. E há os pombos. E as rolas. E os barcos, como lesmas, no Tejo. E os vizinhos em camisola interior, incapazes de voar, crucificados nos craveiros das varandas. E tu e eu, cada vez mais transparentes e magros, a prepararmos o pequeno almoço de meio grama de heroína da injecção da manhã.

Auto dos Danados
 

 

 

 

 

 

Mário Cláudio (1941), firmando-se de início como poeta e cultivando vários géneros literários, é sobretudo conhecido como ficcionista desde a publicação de Um Verão Assim, 1974, reafirmando-se com Damascena, 1983, e sendo reconhecido como um dos grandes vultos da ficção portuguesa contemporânea a partir da sua Trilogia da Mão (com volumes sobre Amadeo Souza-Cardoso, Guilhermina Suggia e Rosa Ramalho). O pendor para as formas literárias de reconstituição, aliando a capacidade de evocação de ambientes e figuras a uma muito pessoal subjectividade de deformação criativa, acentua-se em muitas das suas obras posteriores, como A Quinta das Virtudes, 1990, ou As Batalhas do Caia, 1995.

Fora Cândida Branca fruto de certo romance, fugacíssimo e intenso, entre um cocheiro de mala-posta, casado e pai de outras duas raparigas, e uma vendedeira de doces, da aldeia de Irivo, no fojo de Penafiel. Haviam-se avistado seus progenitores, na romaria da Senhora Aparecida, por uma longa jornada ardente, dessas que fazem desfalecer os próprios milheirais. E, no meio das espigas, engendrara-se a pequena, crescendo à sombra, depois, da doceira, a qual acharia, mais tarde, um rapaz de quinta, disposto a recebê-la, por consorte.

A Quinta das Virtudes
 

 

 

 

Maria Gabriela Llansol (1931-2008) é um caso ímpar na ficção contemporânea, de jorrante, inesperada e original criatividade. De estilo muito próprio, a sua forte personalidade afirmou-se desde 1957, com as narrativas de Os Pregos na Erva, consolidando-se com O Livro das Comunidades, 1978, e com todas as suas obras posteriores, de que poderemos salientar A Restante Vida, 1978, e Um Beijo Dado mais tarde, 1990, e Lisboaleipzig, 1994 e 1995. Aliando a subjectividade enunciativa a um forte pendor mítico de implicação lírica, que funda numa visão da vida e do mundo de tipo religioso herético, sensualista e naturalista, a sua ficção caracteriza-se por uma hibridez de registos e de convocação, temporal e espacial de entidades, que no entanto assume uma coesão que lhe é dada por uma marca discursiva persistente e inconfundível.

O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.

Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta, e ela deseja Johann, é o seu lugar cénico que se deseja,os gestos do texto que descreve no espaço e chamar-lhe precioso companheiro; de mim, direi que fui uma vez enviado, trouxeste a frase que nunca antes leras,o meu corpo a disse, e não reparaste que ficaste com ela escrita.

Lisboaleipzig 2

 

Mário de Carvalho (1944) e Luísa Costa Gomes (1954), embora de idades distanciadas, são duas personalidades literárias afirmadas durante os anos oitenta mas confiimadas mais ou menos pelos finais da década, o primeiro com A Paixão do Conde de Fróis, 1986, e a segunda com O Pequeno Mundo, de 1988. Ligado às reconstituições histórico-paródicas, Mário de Carvalho produziu uma obra de teor complexo com o seu recenteUm Deus Passeando na Brisa da tarde, 1994, romance sobre os alvores e implicações do cristianismo e possibilidade da sua releitura actual, e Luísa Costa Gomes deu-nos, em Olhos Verdes, 1994, uma singular obra de simulação e crítica da publicidade e das solicitações mediáticas. Praticando ambos uma escrita de recorte sintáctico clássico, e assumindo uma temática colhida no comum ou mesmo no vulgar, salientam-se pelo modo como lhe incutem cambiantes inesperados e sentidos de intensa acutilância reflexiva e crítica.

            

 

A chouto rápido, os dois cavaleiros prosseguiam agora pela charneca, já muito apartados da carreteiro, desandando para as bandas da raia. Contornaram um pinheiral em redondo, hesitaram à vista do plaino nu que a pequena elevação da praça dominava e lançaram-se num galope acelerado, a descoberto, obliquando contra a Espanha. Em pouco se sumiam, deixando como sinal do percurso uma mó de poeira que se ia tornando mais e mais ténue deste lado de cá.

Mário de Carvalho, A Paixão do Conde de Fróis

 

 

Os interesses dele eram as empresas, os utilitários, a carpintaria artística e o espaço. Futebol via de vez em quando. Tinha teorias sobre as coisas e ambicionava partilhá-las com outros. Explicava-se com clareza, embora não se pudesse considerar que fizesse sempre todo o sentido. O que o intrigava sobremaneira era o espaço, o espaço que permeava tudo, o ar vazio entre a secretária e a cadeira, entre o rosto e a mão, entre o chão e o tecto. Disse que tinha a certeza de que todos os espaços vazios tinham um significado profundo.

Luísa Costa Gomes, Olhos Verdes
 

 

 

Muitos outros romancistas e poetas enriquecem a nossa literatura e tornam difícil a sua sinopse. Os contemporâneos são isso mesmo: o excesso em relação ao olhar do crítico, o transbordar da vida e da sua continuidade inesgotável em relação ao crivo do historiador.

Fiquemos, ainda, pois, com poetas como Egito Gonçalves, Nuno Júdice, Vasco Graça Moura, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge, Paulo Teixeira - e o mesmo diremos dos escritores de ficção: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Hélia Correia, Alexandre Pinheiro Torres, Eduarda Dionísio e tantos outros.

São todos estes, aliás, aqueles de que não chegámos a falar e os que nem sequer nomeámos, que dão sentido ao que aqui se escreveu, para que fique incompleto, e fazer sentir o quanto a literatura é viva e desmedida, porque ela é antes de mais leitura e tempo, e não fixidez, e não cabe afinal em nenhuma página:

 

 

O tempo não podia correr numa ilha sem lugar e sem sombras.
mas abolido o tempo, a história deixava de existir.
ao princípio era a ninfa e o silêncio da máquina do mundo.
era o silêncio no mais puro momento da sua glória inteligível.

Vasco Graça Moura, Concerto Campestre, 1993

 

 


O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o vôo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.

Egito Gonçalves, E no entanto Move-se, 1995

«Epístola para Dédalo»

 

Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria? Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.

Fiama Hasse Pais Brandão, Epístolas e Memorandos, 1996

 

 

Começo onde a memória dói.
Coisas antigas do susto de viver
terrores dos rostos dos outros
nem sei. Digo isto. Um espírito de meditação
nasceu da loucura, nunca soube de
tais coisas foram feitos os meus dias
de puros sons quebrados por sons puros. (...)

Joaquim Manuel MagalhãesAntónio Palolo, 1978

 

 

«Post-Scriptum»

Que rumor consegue ainda magoar-te,
deixar-te inquieto e só à volta das palavras?
Que rumor pode levar-te a escrever assim,
circunspecto e árido,
escassos versos?

Luís Filipe Castro Mendes, Modos de Música, 1996

 

 

 

Com os gravetos encalhados o vento desenha

na parede o gráfico do teu sopro      Com as mãos

           perdidas desfazes a imagem à espera

           que a parede se abra Será a última

                      parede do labirinto?

Manuel Gusmão, Mapas. O Assombro a Sombra, 1996

 

 


 

«Post-Scriptum»

Que rumor consegue ainda magoar-te,
deixar-te inquieto e só à volta das palavras?
Que rumor pode levar-te a escrever assim,
circunspecto e árido,
escassos versos?

Luís Filipe Castro Mendes, Modos de Música, 1996

 

 

 

Com os gravetos encalhados o vento desenha

na parede o gráfico do teu sopro      Com as mãos

           perdidas desfazes a imagem à espera

           que a parede se abra Será a última

                      parede do labirinto?

Manuel Gusmão, Mapas. O Assombro a Sombra, 1996
 

 

Fonte: Centro Virtual Camões

cvc.instituto-camoes.pt/literatura/contemporaneos.htm#inicio