Empréstimo Bancário.

Empréstimo Bancário.

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            A vida é mesmo engraçada, e muitas vezes reclamamos de nossas provas e nos esquecemos de lembrar os bons momentos que ela nos dá.

            Todas as minhas crônicas e contos têm na sua origem um pouco de verdade e das passagens da minha vida e de meus familiares. Sou uma pessoa de sorte, pois vivo no meio de pessoas alegres, e eles não desanimam ao depararem com os obstáculos da vida, e relato um pouquinho desta história para terem noção como as histórias acontecem.

            Há alguns anos atrás em plena mudança política do país, podemos lembrar de que o governo federal bloqueou todas as poupanças do país com objetivo de inibir o crescimento da inflação. E é exatamente neste período de nossa história que muitos empresários, autônomos e grandes e pequenos fazendeiros quebraram, e foi neste período que esta história ocorreu.

            Em nossa região não existem grandes latifundiários ou grandes fazendas, mas existem muitos pecuaristas e pequenos sitiantes, e esta história aconteceu exatamente com um pequeno fazendeiro.

            Senhor Antônio era um fazendeiro bem sucedido, tirava na época seus dois mil litros de leite e mantinha na invernada entorno de duzentas cabeças de boi.

            Com a economia fraca, o leite barato e a cada dia os custos de produção aumentando, o senhor Antônio foi aconselhado a vender quase todas suas criações e depositar o valor da venda na poupança, pois o dinheiro especulativo estava rendendo mais que o produtivo.

            Com os cálculos no papel provando que se o dinheiro de seu patrimônio realmente estivesse na poupança renderia mais que sua receita mensal bruta, senhor Antônio não perdeu tempo e vendeu quase todas suas cabeças de boi e a metade de seu gado leiteiro. Recebendo o pagamento à vista, ele então depositou tudo na poupança.

            Senhor Antônio tinha certeza de sua liberdade financeira, a sua alforria da labuta diária do sitio havia acabado naquele dia.

            O tempo passou e alguns meses após senhor Antônio começar a viver de rendas, houve a eleição no país que elegeu para presidente o candidato Fernando Collor de Melo.  A história começou mudar aqui, pois logo após a posse do presidente eleito teve como um de seus primeiros atos políticos para acabar com a inflação, a mudança do nome da moeda com a exclusão de três zeros e complementando o seu plano econômico, ele reteve todas as poupança, quase matando o Senhor Antônio do coração, ao ver que não poderia nem mesmo retirar seus rendimentos.

            A despesa do sitio era alto e os custos de pouca produção não cobriam seus gasto, a economia do país passava por um momento delicado da nossa história.

            Todos pensavam que aquele período seria uma moratória curta, pois com a moeda estável e a economia dando seus primeiros passos à estabilidade, muitos começaram a negociar em longo prazo com taxas de juros altos, muitas pessoas ainda não tinham assimilado o que estava acontecendo em nosso país.

            Senhor Antônio começou a passar por dificuldades financeiras, que até então nunca tinha passado.  Com a valorização do gado leiteiro e com poucas economias que mantinham em sua casa, ele não conseguiria repor nem a metade de seu rebanho. Senhor Antônio já estava pensando em vender a fazenda e lagar mão de tudo que gostava.

            Foi quando este nosso amigo em comum, que vamos chamar de Geraldo, soube das dificuldades do compadre e resolveu ir visita-lo.

            Chegando à fazenda já ao cair da tarde, eles começaram a falar da vida, das dificuldades e da situação que o Senhor Antônio e sua família estavam passando.

            No meio da conversa Geraldo aconselhou o compadre a fazer um empréstimo bancário, pois mesmo com juros elevados, ainda existia uma política de financiamento aos pequenos pecuaristas com juros baixos.

            Foi quando Senhor Antônio falou para Geraldo, que ele já tinha ido ao banco tentar este empréstimo, porém o gerente do banco lhe pediu garantias, podendo ser as terras ou o gado. Mas como todos sabem senhor Antônio não possuía mais tantos animais assim, e sua terra era herança e não tinha registro delas.

            “A falta de registro antigamente no interior era muito comum, pois as heranças passavam de pai para filho com o poder da palavra e do acordo entre os herdeiros.”

            Com isso, não havia outra solução, a não ser vender as terras.

            A conversa estava acontecendo na porta da sala do casarão, e dali Geraldo enxergava as terras de seu amigo ao longe, foi daí que Geraldo teve uma ideia mirabolante para ajudar ao amigo.

            Para que o amigo tivesse direito ao empréstimo, ele deveria dar alguns bens de garantia, e com certeza algum funcionário do banco iria à fazenda para ver a veracidade do empréstimo.

            Geraldo então começou a contar seu plano:

            ___ Compadre, eu vou contar-lhe uma coisa, pois acabei de ter uma ideia que será a salvação do amigo.  Daqui da varanda da casa do amigo, vejo bem a extensão de suas terras, e observei que tem muitos cupinzeiros espalhados pelo pasto, e eles serão a sua salvação.

            Incrédulo senhor Antônio não estava entendendo nada daquela conversa, e como aqueles cupinzeiros iriam ajudá-los a conseguir o empréstimo bancário.

            Será que o Banco aceitaria aqueles cupinzeiros como garantia bancária?

            Mas Geraldo foi logo explicando.

            ___ Compadre, o banco vai mandar um funcionário aqui fechar o contrato com o amigo, e sei que ainda tem alguns nelores no pasto. Então o senhor vai fazer o que eu vou te explicar:   amanhã o compadre vai mandar seus filhos pintar de cal todos os cupinzeiros, mas principalmente os grandes.             Porém o compadre manda pintar aqueles que estão no último pasto que daqui avistamos. Logo em seguida, o senhor vai pegar seus bois e deixá-los fechados naquele pasto, junto dos cupinzeiros pintados de branco. Vá ao banco e faça o pedido do empréstimo, porém marque horário para receber o funcionário do banco em sua casa, mas deixe claro que só no cair da tarde o senhor poderá recebê-lo para fechar o contrato. Assim quando o funcionário pedir para ver o gado que estará dando com garantia para o empréstimo, o senhor mostra os bois no pasto, e se ele pedir para ver de perto o gado, fale para ele que o compadre vai pedir para seus meninos buscar no pasto. E avise-o que os bois são bravos e só conseguem lidar com eles montado em cavalos.  Então peça aos seus meninos para buscarem os bois maiores, mas não todos, pois tem que deixar alguns no pasto no meio dos cupinzeiros, para dar a impressão de estarem todos andando.

            Meio à contragosto, mas sem alternativa, assim Senhor Antônio procedeu.

            Na semana seguinte tudo estava pronto, os cupinzeiros pintados e os bois soltos em seu meio que visto de longe dava a real impressão de estarem todos os animais pastando.

            O empréstimo no banco estava tudo quase aprovado, faltava apenas a avaliação da garantia.

            No dia marcado o funcionário da agência bancária chegou à fazenda e começaram a conversa final do financiamento.

            Geraldo presenciava toda negociação.

            Era numa tarde de inverno e estavam todos na varanda do casarão já começando o  cair o dia.

            A conversa estava boa e fluindo tudo para o fechamento do contrato, o funcionário do banco então perguntou sobre o gado.

            Neste momento Senhor Antônio mostrou da varanda o gado no pasto, eram muitas cabeças que deixou o funcionário do banco admirado, ao ver um fazendeiro com tanto animais, solicitar empréstimo para comprar mais bois.

            Porém sem malícia na mente, o funcionário do banco pediu para que o senhor Antônio mandasse buscar alguns bois para avaliação, pois não seria necessário ver todos, já que ali da varanda ele já tinha uma noção da quantidade.

             Assim tudo foi feito, no curral preso estavam dez cabeças de nelore, de bom porte e saudável.

             Mas o funcionário do banco começou a fazer muitas perguntas ao senhor Antônio, como por que retirar empréstimo no banco com um rebanho pronto para venda?

            Todas as perguntas eram feitas apenas para efeito de curiosidade do funcionário.

            Geraldo estava acompanhando toda negociação, porém ele já estava ficando aflito ao ouvir as respostas de seu compadre, Geraldo conhecia bem seu amigo e percebeu que aquele monte de pergunta estava deixando-o nervoso.

            Com tantas curiosidades e perguntas recebidas, Senhor Antônio foi ríspido e direto em sua resposta final, deixando até mesmo Geraldo de boca aberta.

            Assim ele respondeu:

            ___Aqui seu moço, me deixa te falar uma coisa. O senhor está vendo aquele morro lá longe e o outro atrás dele.  Pois é, é tudo meu.   E o senhor está vendo bem aquele punhado de ponto branco no pasto.  Pois é.  São bois como estes presos no curral.  E são todos meus.  E o senhor quer saber de uma coisa.   Se seu banco quiser me emprestar o dinheiro bem. Porém se não quiser, problema de vocês, pois eu vendo meus bois e junto o dinheiro que preciso.

            Geraldo ficou branco ao ouvir seu próprio compadre falar aquilo, ou era um blefe, ou ele mesmo estava acreditando em sua própria mentira.

            Em fim, algumas vezes a própria mentira de tão bem fala, que até mesmo o mentiroso acredita na própria mentira. Para sorte do Senhor Antônio, o jovem bancário pediu desculpas pelo incômodo e aprovou os cupinzeiros como garantia do empréstimo.

            Assim é a vida, e assim acontecem os fatos e os causos ao meu redor.

 

Leandro Campos Alves

 

 

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